A dona de casa Fátima Pereira, 54, recebe desconfiada a visita do estudante da Universidade Federal do Ceará (UFC). “Tô fazendo a comida, não pode ser depois?”. O assunto é urgente e, aliás, já vem tarde. A visita de um dos alunos do curso de Engenharia Hidráulica e Ambiental, Ruberval Arruda Filho, já acontece há dois meses no bairro Planalto Pici e colhe dados sobre os destinos que a população do bairro dá ao material eletroeleletrônico - quando perde a utilidade e vira lixo.
“Costumo dar pra quem quiser usar. Coloquei na calçada uma geladeira e umas horinhas depois, não estava mais lá”, relata dona Fátima, que divide com o marido e o filho a casa de cinco cômodos. Na residência, o aparelho de televisão é de LCD e os três celulares da família são smartphones. E o que foi feito da TV e dos telefones antigos, dona Fátima? “Rebolei no mato” - foi a resposta da dona de casa, revelando a cearensidade que permite concluir que seu lixo eletrônico foi arremessado fora, em lixo comum.
A realidade da maioria dos brasileiros não é muito diferente da vivida por Fátima. Todos os anos, são gerados milhares toneladas de lixo eletroeletrônico no Brasil e no mundo. O problema está justamente no que é feito desse material. A maior parte dos resíduos não tem ainda destinação adequada. Um risco para o meio ambiente e a saúde. “Os principais metais pesados são chumbo e mercúrio. Eles fazem mal para o aparelho respiratório e também para o aspecto neurológico”, explica o professor do curso de Engenharia Hidráulica e Ambiental da UFC, Ronaldo Stefanutti.
O Brasil é o País emergente que mais gera lixo eletrônico por habitante em um ano, segundo o Programa da Organização das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Segundo dados de 2010, a cada ano é gerado meio quilo de lixo vindo de computadores por pessoa no País. A China, maior produtora de resíduos eletrônicos do mundo, descarta apenas 0,23 quilo per capita. A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que cerca de 50 milhões de quilos de lixo desse tipo são gerados todos os anos no planeta.
A Política Nacional de Resíduos Sólidos é uma esperança de mudança. Sancionada pela Casa Civil da Presidência da República em agosto de 2010, a nova regulamentação responsabiliza a cadeia de produção e venda de produtos eletrônicos pelo recolhimento do material e destinação adequada. Mas o prazo que fábricas e lojas têm para se adequar é até 2014. Ou seja: ainda é difícil encontrar locais que aceitam receber o material.
Lixo eletrônico
Não existe dado estatístico exato do descarte do lixo eletrônico no Brasil. É possível se ter uma ideia a partir de dados como o da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). A agência atesta que existem 243 milhões de conexões de celular no País. “Considerando que, a cada três anos, temos uma troca de aparelho e jogamos a bateria fora para comprar uma nova, temos um problema grave, porque esse resíduo é o mais tóxico”, alerta Stefanutti.
O professor coordena a pesquisa sobre resíduos sólidos eletrônicos no bairro Planalto Pici, da qual Ruberval faz parte. O objetivo é mapear o destino do lixo e providenciar coletores de lixo eletrônico para reciclagem. “A preocupação com a destinação do lixo eletrônico já vem em um momento tardio”, pontua Stefanutti. Seria necessário, segundo o professor, ter se pensado nessa destinação à medida que os primeiros equipamentos se tornaram obsoletos.
Poluição do solo e do lençol freático e prejuízos à saúde do homem são apenas algumas das consequências da destinação incorreta desse tipo de material. O Ciência & Saúde desse domingo trata do tema e oferece alternativas para o leitor. Já que não existe o “jogar fora”, se levarmos em conta o mundo.
FONTE: http://www.opovo.com.br/app/opovo/cienciaesaude/2012/11/17/noticiasjornalcienciaesaude,2955070/nao-rebole-seu-lixo-eletronico-no-mato.shtml
ACESSE: www.ecoreverso.com.br
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